ARTIGO COMENTADO: Comprometimento da integridade da barreira esofágica: novas perspectivas sobre os sintomas esofágicos no período pós-COVID-19
ARTIGO ORIGINAL
Titulo original: Impairment of Esophageal Barrier Integrity: New Insights into Esophageal Symptoms in Post‑COVID‑19
Citação: Feitosa DSLL, Saraiva LGM, de Sousa MKA, da Silva LMG, Borges IC, Ribeiro TA, Lederhos QR, de Castro Silva RR, Paula SM, de Freitas Clementino MA, Havt A, Souza MHLP, Dos Santos AA, Souza MAN. Impairment of Esophageal Barrier Integrity: New Insights into Esophageal Symptoms in Post-COVID-19. Dig Dis Sci. 2025 Aug;70(8):2674-2683. doi: 10.1007/s10620-025-09062-3. 2025 May 2.
Autoria:
- Dr. Marcellus H. P. L. Souza
- Membro Titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) e da Sociedade Brasileira de endoscopia (SOBED)
- Professor Titular de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará
- Livre Docente em Gastroenterologia, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo
- Dr. Miguel Angelo Nobre e Souza
- Membro Titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) e da Sociedade Brasileira de endoscopia (SOBED)
- Professor Associado de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará
- Doutor em Clínica Médica Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo

O estudo investiga o comprometimento da integridade da barreira epitelial esofágica e sua relação com a prevalência e intensidade de sintomas gastroesofágicos em pacientes que se recuperaram da COVID-19 (pós-COVID-19).
A pandemia de COVID-19 revelou uma série de sintomas que vão além do sistema respiratório, incluindo manifestações gastrointestinais significativas. Evidências mostram que esses sintomas podem persistir por meses após a alta hospitalar, caracterizando a condição de “long COVID”.
O estudo investigou a conexão entre a infecção prévia por SARS-CoV-2 e a persistência de sintomas gastroesofágicos, como pirose e regurgitação ácida, em pacientes de 3 a 6 meses após a alta hospitalar. Foi conduzido como um estudo de coorte prospectivo longitudinal que envolveu 55 pacientes hospitalizados devido à COVID-19 em um Hospital Universitário (HUWC- UFC). Os sintomas dos pacientes foram avaliados durante a hospitalização e entre 3 e 6 meses após a alta, utilizando o questionário validado Gastrointestinal Symptom Rating Scale (GSRS) para sintomas gastrointestinais e de refluxo gastroesofágico. Os participantes eram considerados sintomáticos se relatassem desconforto moderado a grave (pontuação ≥ 4). Vinte e cinco (25) desses pacientes e oito (8) controles não-COVID-19 foram submetidos a endoscopia digestiva alta 6 meses pós-alta, com biópsias da mucosa esofágica distal. As biópsias foram utilizadas para analisar a integridade epitelial quanto à resistência elétrica transepitelial (TEER) e à permeabilidade (usando fluoresceína como marcador), tanto em condições neutras (pH 7.4) quanto ácidas (pH 2). Foram analisados os níveis de citocinas inflamatórias (incluindo IL-1β, IL-6, IL-8 e TNFα) e a expressão da proteína de junção celular Claudin-2 por Western blot.
Os resultados mostraram um aumento significativo na frequência de sintomas nos indivíduos recuperados, indicando um efeito duradouro da doença no trato digestivo. A nível fisiológico, as amostras de biópsia indicaram uma permeabilidade esofágica acentuadamente maior em pacientes pós-COVID quando expostas a pH ácido, sugerindo uma barreira mucosa comprometida. Essa disfunção da barreira estava associada a um aumento nos níveis do marcador inflamatório IL-8 e à aumento da expressão da proteína de junção Claudin-2.
Os dados sugerem que a infecção por COVID-19 pode causar danos duradouros à barreira epitelial esofágica, aumentando sua permeabilidade e provocando uma resposta inflamatória exacerbada. Essas alterações (aumento da permeabilidade, elevação da IL-8 e aumento da Claudin-2) podem deixar a mucosa esofágica mais vulnerável a irritantes exógenos como refeições ácidas, hiperosmolar ou de temperaturas extremas e a irritantes internos como o refluxo gastroesofágico. Desta forma, pode explicar a prevalência de sintomas gastroesofágicos persistentes após a infecção. O estudo ressalta a importância do monitoramento contínuo e do desenvolvimento de estratégias terapêuticas para mitigar os efeitos gastroesofágicos em pacientes recuperados da COVID-19Os autores concluem que a COVID-19 causa danos persistentes à barreira epitelial esofágica, o que provavelmente explica a prevalência de sintomas gastrointestinais na síndrome pós-COVID.


