ARTIGO COMENTADO: Sintomas, mas não a fisiologia, diferenciam dispepsia funcional com ou sem sobreposição de distúrbios gastrointestinais
ARTIGO ORIGINAL
Referência bibliográfica: Ceulemans M, Wauters L, Broeders B, Schol J, Van de Bruaene C, Van den Houte K, et al. Symptoms but not physiology differentiate functional dyspepsia with or without overlapping gastrointestinal disorders. Clin Transl Gastroenterol. 2025;16(12):e00938. doi:10.14309/ctg.0000000000000938.
- por Fábio Ramalho Tavares Marinho
- Mestre em Ciências pelo Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
- Docente em Gastroenterologia pela Universidade Federal de Alagoas
- Membro Titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) e da Sociedade Brasileira de Endoscopia e Endoscopia Digestiva (SOBED)
- Membro da Comissão Jovem Gastro da FBG (2025-2026) e da Comissão de Título de Especialista em Endoscopia Digestiva da SOBED (2023-2024 e 2025-2026).
Dispepsia funcional (DF) é uma das doenças mais frequentes no consultório do gastroenterologista, com prevalência estimada de 7,2% na população mundial. É causa importante de prejuízo da qualidade de vida, impactando no trabalho e na vida social do paciente.1
A sobreposição de desordens da interação intestino-cérebro (DIIC) entre si e com doença do refluxo (DRGE) acomete cerca de um terço dos pacientes. Estes apresentam maior severidade dos sintomas e pior prognóstico, o que demonstra a importância do diagnóstico precoce e correto da sobreposição e do entendimento das particularidades da apresentação clínica, comorbidades psicológicas e mecanismos fisiológicos envolvidos.2,3
Com base nesta premissa, Ceulemans e cols. (2025) desenvolveram um estudo com o objetivo de comparar a severidade dos sintomas do trato gastrointestinal (TGI), a ocorrência de sintomas psicológicos e particularidades dos mecanismos fisiológicos entre pacientes com DF isolada e DF em associação com SII e/ou DRGE. O estudo foi realizado em centro único, terciário, o que pode explicar a alta prevalência de sobreposição das desordens gastrointestinais (52%). Isto também limita a validação externa e a aplicabilidade dos resultados na população em geral. Participaram 202 pacientes, número relativamente pequeno.4
Trata-se de estudo transversal através de agrupamento de dados de pacientes provenientes de sete outros estudos.4 A ausência de coleta de dados seguindo um desenho metodológico próprio deste estudo leva à perda de dados, já que as metodologias dos sete estudos iniciais foram diferentes e nem todos os pacientes foram avaliados pelos mesmos parâmetros. Isto, aliado a taxas elevadas de perdas randômicas (dados incompletos ou problemas técnicos), que atingiram valores de até 26%, compromete a análise da força de associação de alguns resultados.
O estudo observou maior severidade de sintomas do TGI superior e maior ocorrência de sintomas psicológicos (ansiedade, depressão e sintomas somáticos extraintestinais) em pacientes com sobreposição de DF e DRGE ou SII, sendo mais evidente na sobreposição de ambas com DF. Dados de qualidade de vida foram numericamente piores no grupo com duas sobreposições, mas sem significância estatística, o que pode ser em parte explicado pela baixa disponibilidade de dados (87/202 pacientes; 43%).3 Estes dados estão em conformidade com estudos prévios da literatura.5
Este é o primeiro estudo que avaliou de forma objetiva os mecanismos fisiológicos envolvidos com as DIIC. No entanto, todos os parâmetros avaliados – resposta do cortisol ao despertar, permeabilidade intestinal (resistência elétrica transepitelial e FITC-dx4), tempo de meio esvaziamento gástrico, proteína C reativa ultrassensível e ativação imune local (contagem histológica de eosinófilos e mastócitos) – não apresentaram diferenças entre os pacientes com DF isolada e DF com uma ou duas sobreposições.4 No entanto, a análise dos parâmetros fisiológicos foi prejudicada pela baixa disponibilidade de dados, que variou de 30,6% (62/202, contagem de mastócitos) a 64,3% (130/202, resposta do cortisol ao despertar), o que enfraquece uma das principais conclusões do trabalho, de que os parâmetros fisiológicos não diferenciam DF com ou sem sobreposição de DRGE e/ou SII.
Em análise comparativa pelo subtipo de DF, portadores da síndrome da dor epigástrica (EPS) apresentaram sintomas menos severos em relação a pacientes com síndrome do desconforto pós-prandial (PDS) ou com sobreposição dos dois subtipos (EPS+PDS). Em relação aos parâmetros fisiológicos, houve apenas tendência de menor contagem de mastócitos na EPS em relação a PDS e à sobreposição EPS + PDS. Não houve diferença entre os subtipos de DF quanto à contagem de eosinófilos.4 Os dados são semelhantes a estudos prévios da literatura.6
Maior contagem histológica de eosinófilos foi associada a sintomas de ansiedade, mesmo após ajuste para outros fatores de confusão, o que não ocorreu com nenhum outro sintoma psicológico ou do TGI.4 Eosinofilia duodenal é um achado descrito em diversos trabalhos em pacientes com DIIC.6 A associação com ansiedade indica uma interação fisiológica entre um sintoma psicológico proveniente do sistema nervoso central e a ativação imune local intestinal, compatível com a fisiologia do eixo intestino-cérebro das DIIC. No entanto, esta associação necessita de mais estudos para melhor compreensão.
A não realização de impedâncio-pHmetria e manometria esofágica para confirmação do diagnóstico de DRGE é uma limitação importante do estudo. Definir um caso de DRGE baseado apenas em sintomas típicos coloca em uma mesma categoria doenças com fisiopatologia bastante distintas, como a própria DRGE, pirose funcional e até mesmo acalásia em estágio inicial, constituindo fator de confusão importante na análise deste subgrupo.
Trata-se de um estudo inovador, que aborda de forma objetiva parâmetros fisiológicos, porém que necessita de confirmação com estudos maior amostragem e desenho metodológico único para todos os pacientes para validação dos dados encontrados.
Referências
- 1) Sperber AD, Bangdiwala SI, Drossman DA, Ghoshal UC, Simren M, Tack J, et al. Worldwide prevalence and burden of functional gastrointestinal disorders, results of Rome Foundation Global Study. Gastroenterology. 2021;160(1):99-114.e3. doi:10.1053/j.gastro.2020.04.014.
- 2) Pasricha PJ, Talley NJ. Functional dyspepsia. N Engl J Med. 2026;394(2):166-176. doi:10.1056/NEJMcp2501860. Erratum in: N Engl J Med. 2026;394(6):624. doi:10.1056/NEJMx260003.
- 3) Fairlie T, Shah A, Talley NJ, Chey WD, Koloski N, Lee YY, et al. Overlap of disorders of gut-brain interaction: a systematic review and meta-analysis. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2023;8(7):646-659. doi:10.1016/S2468-1253(23)00102-4.
- 4) Ceulemans M, Wauters L, Broeders B, Schol J, Van de Bruaene C, Van den Houte K, et al. Symptoms but not physiology differentiate functional dyspepsia with or without overlapping gastrointestinal disorders. Clin Transl Gastroenterol. 2025;16(12):e00938. doi:10.14309/ctg.0000000000000938.
- 5) Yao X, Yang Y, Zhang S, Shi Y, Zhang Q, Sun Y, et al. The impact of overlapping functional dyspepsia, belching disorders and functional heartburn on anxiety, depression and quality of life of Chinese patients with irritable bowel syndrome. BMC Gastroenterol. 2020;20(1):209. doi:10.1186/s12876-020-01357-1.
- 6) Shah A, Fairlie T, Brown G, Jones MP, Eslick GD, Duncanson K, et al. Duodenal eosinophils and mast cells in functional dyspepsia: a systematic review and meta-analysis of case-control studies. Clin Gastroenterol Hepatol. 2022;20(10):2229-2242.e29. doi:10.1016/j.cgh.2022.01.014.


